janeiro 29, 2007

Marcos 2.1-12

Marcos não perde o gosto pela aventura descritiva em seu manuscrito. Na qualidade de "repórter", ele gosta especialmente de fazer a cobertura de eventos que reúnam muita gente. O episódio é propício a um registo desta natureza.
A oportunidade de encontro do povo de Cafarnaum com o Mestre não carecia de estímulos exteriores. A rua bem podia ter ficado com o nome "Avenida das multidões", pois eram muitos os que se agregavam junto à porta da habitação por não haver lugar nela. Lucas enriquece a reunião ao informar-nos que na casa do Mestre estavam presentes “fariseus e doutores da lei que tinham vindo de todas as aldeias da Galileia, Judeia e Jerusalém”. A representação era alargada e por isso não admira que a casa estivesse a apinhar. Tudo indica que no início do Seu Ministério Jesus se serviu mais da sua própria casa, cuja residência transfere estrategicamente de Nazaré para Cafarnaum (Mateus 4.13).
A população aguardava com ânsia o regresso do Mestre e o cansaço da viagem não O impedia de imediato apresentar-lhes a Palavra. É Jesus quem melhor nos ensina a escutar o coração dos outros. O Seu ministério está repleto de acontecimentos vivos que revelam o cuidado que manifestava a todos quantos O procuravam. Foi assim com Nicodemos, com Zaqueu, com Jairo e tantos outros. O respeito que sentia por todos significava ouvir-lhes o "bater do coração", o desejo da alma. Eram as necessidades dos outros que moviam o coração do Mestre e remetiam para mais tarde o Seu descanso merecido. Que tremenda lição!
Marcos é o único dos evangelistas que nos refere o pormenor dos quatro ajudantes do paralítico que jamais poderia ter ido a Jesus se não tivesse sido ajudado por estes. Esta é uma das tarefas para a qual os cristãos conscientes são motivados – levar outros a Jesus, a exemplo de André o qual encaminhou a seu irmão Pedro, o mesmo que narra a Marcos as façanhas do seu escrito. Ora furar por entre a multidão não era tarefa fácil, mas fazê-lo com um paralítico em maca era obra quase impossível. João Marcos reforça a narrativa com este notável indicador - "descobriram o eirado no ponto correspondente ao que Ele estava"; dá-nos a ideia de alguém que presenciou a cena in loco. Imagino quantos cálculos feitos sem régua, quantos passos dados sem medida, quantas opiniões e sugestões se trocaram entre os quatros homens encarregados da façanha. Para não falar nos cálculos dos estragos. Quem pagaria a conta? O paralítico? O fundo social do Templo? Terá a fé de todos eles calculado tudo isso? Na fé deles há um sentido apurado de oportunidade que não desejam perder. A fé fez disparar o indicador da razão e a combinação resultou em pleno num magistral plano que até ao Mestre causou surpresa.
O exercício da fé leva em conta a razão? É a fé irracional? Torna a fé a razão cega? Quem está ferido de fé pode tornar-se louco aos olhos dos cépticos mas nunca aos olhos de Deus. A fé não tem preço que se pague porque não tem produto que se compre. Mas enriquece aquele que dela se nutre!
Fica a pergunta: qual a verdadeira motivação do paralítico? Quer ele ir a Jesus para receber cura física ou espiritual? Ele não deve ter sabido bem o que desejava! Uma mescla de emoção se abateu sobre ele. Uma coisa, porém, o paralítico sabia – O Mestre tinha poder para curá-lo! Outros já haviam recebido os mesmos favores que ele ansiava e foram compensados da sua espera. O Mestre curou-o espiritual e fisicamente! Foi uma cura abrangente, atingindo o paralítico por inteiro: alma e vida. O que é resolvido primeiro? O problema do afastamento é resolvido primeiro – “Filho, perdoados são os teus pecados”; o problema da impossibilidade é resolvido em seguida – “a ti te digo, levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”. A cura originada em Deus resolve sempre em primeiro lugar o problema do afastamento da Fonte da virtude para acertar contas, em seguida, com o efeito do mal. Com Deus a origem do pecado sofre o revês para que o poder do mal seja enfraquecido e vencido (muitos pregadores modernos não pregam esta ordem). Quando nos dirigimos a Jesus Cristo com honestidade sempre recebemos a dobrar e as nossas expectativas diante de Deus são sempre superadas. O Senhor não deixa os Seus créditos por mãos alheias! Foi o apóstolo Paulo que escreveu - “Ora Àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou esperamos, segundo o poder que em nós opera…” (Efésios 3.20).
Outro pormenor de Marcos é não deixar que o leitor se encarregue de rotular de aventureiros, desmiulados, irresponsáveis, os amigos do paralítico. Ele transfere para o registo a opinião do Mestre - "vendo-lhes a fé, Jesus disse...". Todos os evangelistas referem a frase – “vendo a fé deles…”. Ao fazê-lo, Marcos quer deixar aos seus leitores o grande contributo de que a fé tem mais alcance quando é vivida em grupo. Somos seres criados à semelhança de um Deus que nunca existiu isolado. Sempre houve relacionamento entre a Trindade e foi nesse contexto que fomos criados. E logo que a relação foi cortada com o ser criado por desvio deste, os meios de relacionamento ainda que limitados nunca foram bloqueados definitivamente. Deus nunca se desligou do homem caído sem que tivesse estabelecido “links” de aproximação, com regras bem definidas, sim, mas tornando sempre possível o relacionamento. Até que por fim “o véu se rasgou de alto a baixo”.
Deus valoriza e aprecia a fé manifestada em grupo. Foi um dos motores do avanço do Cristianismo na Igreja emergente (Igreja emergente só houve uma - a que está em Actos dos Apóstolos). O exercício dessa fé em conjunto, com o mesmo grau de intensidade, fez disparar as emoções do Espírito Santo O qual levou os apóstolos e discípulos a fazerem sinais e prodígios, surpreendendo os admirados que afirmaram: - “os deuses desceram à terra”. Diria mesmo, em opinião pessoal, que a fraqueza do Cristianismo reside aí – na incapacidade de vivermos uma fé em grupo. Israel perdeu porque preferiu uma monarquia em lugar de uma teocracia, a Igreja perde porque prefere o governo dos homens em vez da direcção do Espírito de Deus. E nestes contextos a fé do grupo enfraquece! A incapacidade de vivermos uma fé comum, de que Judas também fala, reside no facto de não termos um Líder comum. A fé da Igreja de Corinto já havia enfraquecido por essa mesma razão; em vez da direcção do Espírito havia os seguidores de “Paulo”, de "Apolo”, de “Cefas”, de "Cristo”…Nada mais relevante deve acontecer no planeta aos domingos que a proclamação saída da boca dos fiéis que em pequenos grupos espalhados por este mundo, dirigem os seus louvores a Um único Deus. O Mestre situou O Pai Clestial em qualquer lugar desde que fosse "adorado em espírito e em verdade", contudo, não deixou de abençoar com a Sua quântica presença aquele maravilhoso ajuntamento de 120 pessoas que iniciavam um hábito jamais terminado. A fé vivida e exercida em conjunto tem outro sabor, outro alcance, outro conforto!
Pela primeira vez o paralítico obtem a experiência de ver as pessoas a abrirem passagem para que ele passe. Pelo seu próprio pé! Não fora ele o único a pasmar-se. Uma multidão enorme admite - "Nunca vimos coisa semelhante".

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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20 de novembro de 2009 às 20:33  

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