fevereiro 21, 2005

Marcos 1.21-28

Marcos inicia a descrição do ministério público de Jesus Cristo começando pela Galileia; omite o curto ministério na Judeia, logo após o Seu baptismo (João 2.13 e 4.3). Após a prisão de João Baptista, Jesus troca a Judeia pela Galileia! Há uma posição estratégica de Jesus nesta decisão, até porque a prisão de JB viria a trazer sobre Jesus todas as atenções uma vez que ele o havia apontado como "aquele que baptizaria com fogo". Ora continuando na Judeia, perto do domínio e das autoridades políticas e religiosas, a oposição que caía sobre JB passaria por certo para Jesus. Ele achou que era cedo para enfrentar estas hostes. Outras razões podem ser apontadas como justificativa para esta deslocalização geográfica do ministério: além das apresentadas anteriormente (ver comentário de Marcos 1.14-15), é de referir a importância geo-estratégia da Galileia, de que Jesus não era alheio, pois as principais estradas comerciais passavam por esta região política, o que resultava para o galileu num contacto com viajantes vindo de regiões como Egipto, Arábia, Síria e outras nações. Por vezes, preferimos falar do início e do progresso do Evangelho a partir do Dia de Pentecostes (Actos 2), contudo, não podemos esquecer que o ministério de Jesus por toda a Nação deixou a semente da sua mensagem semeada em muitos corações; os milagres operados à vista de muitos viajantes deixaram em muitas almas a certeza de que Deus tinha visitado o mundo com a sua graça; muitos destes responderam ao convite do Evangelho quando a mensagem do Salvador chegou às suas terras através dos servos do Senhor.
Aqueles que não vêm Jesus também como um estratega, enganam-se! Marcos faz-nos o favor de referir a primeira cidade da Galileia para onde Jesus viajou. Cafarnaum era uma das lindas 9 cidades que floresciam ao redor do Mar da Galiléia. Outro aspecto curioso é a referência feita à visita à sinagoga logo no primeiro sábado em presença. Jesus não esperou muito tempo para criar impacto nos que frequentavam a sinagoga. Diz Marcos que os judeus se "maravilhavam da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas". A mensagem de Jesus foi dirigida com uma certa urgência aos corações mal ocupados, mal ensinados, mal esclarecidos e, por essa razão, é clara e distinta a diferença de conteúdos do ensino de Jesus Cristo, atraindo as pessoas como no caso do homem possesso do espírito imundo.
Diz-se acerca do Evangelho de Marcos, e com muita razão, que "ele se ocupa mais com aquilo que Jesus fez no Seu ministério público do que com aquilo que Ele disse" (basta referir que Marcos não refere o chamado Sermão do Monte, nem as extensas mensagens dos capítulos 14 a 17 do Evangelho de João, por exemplo). Em Marcos, as mensagens são curtas e as acções descritivas; é o caso do primeiro milagre apontado em Marcos 1.23-26, ao que tudo indica aconteceu em plena sinagoga. Surpreender-nos-á o facto deste primeiro milagre em terras galileias ser a cura de um homem possesso de um espírito imundo? (Marcos não refere a transformação da água em vinho, a que João classificou em 2.1-11 como o primeiro milagre feito na presença dos seus discípulos). Não nos pode surpreender a existência de um forte poder das trevas nos tempos em que Jesus desceu do Céu à terra. Já a profecia dizia: "e o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte..." (Isaías 9.2). O que terá causado tamanhas trevas e o porquê da possessão dos demónios, habitando com frequência a alma dos vivos? Muitas dificuldades de compreensão por parte dos estudiosos bíblicos podem ser esclarecidas se recuarmos para o chamado "período interbíblico ou intertestamentário". Foram cerca de 400 anos de silêncio, sem profetas a fazer soar a voz de Deus; foram 400 anos sem proclamação, sem correcção, sem emenda espiritual. Durante esse período as forças das trevas desceram à terra e fizeram morada nos corações dos homens, as virtudes e os valores espirituais foram profanados e o povo tornou-se profundamente carente da salvação regeneradora. Entende-se, claramente, que a existência deste período só poderia antecipar a chegada do Messias, mas todo o estudioso honesto das Escrituras se sentirá forçado a perguntar: porque Te "calaste" tanto tempo, Senhor?

3 Comments:

Blogger JOINCANTO said...

O silêncio, a espera e a aparente inoperância de Deus fazem parte muitas vezes, do Seu propósito para a nossa vida. Este conceito não é popular numa sociedade que valoriza a o barulho, a actividade e o "fazer".

21 de março de 2005 às 18:57  
Blogger Samuel Rezende said...

Parabéns pelo teu blog.
Deus te abençoe.

25 de julho de 2005 às 02:38  
Blogger Lenita said...

Olá! Gosto da profundidade destas meditações. Parabéns!
Em 400 anos de "silêncio" oficial o povo teve tempo de ficar cansado e desanimado com as suas lutas pela defesa da identidade, teve tempo de se perguntar porquê... mas muitos não o fizeram. As ovelhas estavam desgaradas e atordoadas. Jesus chama Pedro e os demais para um novo tipo de pesca, ou pastorícia: reunir as ovelhas dispersas. A estratégia de Jesus nem sempre fica clara. Se ele se aproxima do povo algumas vezes, outras afasta-se em momentos que se podem considerar um "auge" de popularidade - um "erro estratégico"? A missão de Jesus seguia uma agenda diferente das expectativas de alguns (discípulos, familiares, população desejosa de milagres, classe de sacerdotes e doutos,...). Mas havia alguns pontos a cumprir como o Messias. Não bastava escolher o seu círculo de discípulos e dar-lhes um curso intensivo em "formação da igreja", para os tempos pós-ressurreição, ainda que pontualmente ele o tenha feito. Como Messias, havia que deixar uma marca, uma semente, nos corações do povo, mesmo antes da Redenção se consumar.
Hoje também temos, em geral, bastante silêncio, as pessoas estão saturadas, cansadas... seria tempo de começarem a perguntar por Deus!

30 de novembro de 2005 às 09:30  

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